segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pequeno Guerreiro Heitor e mamãe Tais em Prematuro, a luta pela vida

Heitor, o grande, tirando a
soneca dos justos!
A cada história vemos um panorama diferente das estadas da UTI. Tais (e não Tati! ;D) narra seus duros dias num hospital onde os cuidados com a mãe, personagem tão importante na recuperação do bebê, são negligenciados. Um desabafo, com toques de denúncia, escrito lindamente por uma mamãe que evoca Clarice Lispector e sua Macabéia. Parabéns ao Heitor pela vitória, e à mamãe Tais pela sensibilidade no depoimento!

Somente agora, finalmente em casa é que pude escrever e desabafar sobre os primeiros setenta dias de Heitor, "o grande". A demora se deu não só pelo fato de não ter tido muito tempo, mas também por necessitar entender melhor tudo aquilo que aconteceu nos últimos três meses. Pois bem, vamos lá! Minha gestação não foi planejada, mas foi a surpresa mais maravilhosa que eu já tive. Tive muita saúde e disposição. Fazia planos para trabalhar até a semana 36, depois fazer chá de bebê, curtir e descansar. Preparava-me também para ter parto normal e desejava muito poder amamentar.

Eis que numa ultrassom de rotina, na 30ª semana, eu tive um susto: Heitor tinha tamanho compatível comum bebê de 27 semanas. Foi detectada uma restrição de crescimento. Ele era perfeito, sem deformidades, apenas era muito pequeno e de baixo peso. Desta forma, minha obstetra prescreveu corticoide, para acelerar o amadurecimento dos pulmões e me avisou: seria muito difícil segurar a gestação até a semana 34, meu bebê seria prematuro e iria necessariamente para o CTI. Ela foi bem franca, mas muito segura e amável. Passei a ficar na casa da minha mãe, que monitorava meu repouso, alimentação e tudo mais. Ela era meu anjo da guarda. Meu marido (meu melhor amigo e fiel escudeiro) ficou em casa, tocando a vida do jeito que dava, trabalhando feito um louco, levando o último ano da faculdade e com a missão de terminar o quarto do Heitor (faltava lixar e pintar tudo, fora os móveis pra montar). Ele fez tudo sozinho: existem coisas que o dinheiro paga, e existem coisas que só o amor proporciona. Quando dava ele escapava e ia me ver. Morríamos de saudades um do outro, mas procuramos levar as coisas com força, buscando através da fé, um pouco de alento. Eu havia pedido a ele que não contasse a ninguém sobre o que estava ocorrendo. Não queria preocupar a família dele, e acreditava que seria melhor não ter tanta gente em volta. Tinha medo de ser pressionada, mesmo que sem intenção, e estava muito aflita pra ter que dar explicações o tempo todo. Eu realmente precisava de descanso.

Minha gestação durou apenas mais dez dias, e no dia 01/04/2011 (sim! dia da mentira!) eu fui internada, pelo SUS, para aguardar vaga no CTI Neo. Eu ia fazer tudo particular, mas minha médica me orientou a fazer tudo pelo SUS, visto que a conta do CTI seria muito cara. Ninguém saberia presumir quanto tempo levaria para que ele recebesse alta. Internada, já sabia que poderia ter meu bebê a qualquer momento e seria cesárea. A primeira luta, então, foi contra o tempo, rezando para que ele não entrasse em sofrimento agudo antes de nascer.

No dia 02/04, eu me alimentei normalmente (estava em uma dieta de 3000 calorias diárias para que ele ganhasse peso). Lembro que chovia muito chorei escondida no banheiro com medo da situação. Depois do almoço eu me lembro de cochilar pedindo a Deus um milagre. Pedia que a vaga surgisse logo e que meu parto fosse assistido por profissionais mais acolhedores. Acordei de sobressalto com minha médica toda feliz, dizendo que tinha uma vaga no CTI. Meu parto foi ótimo, as pessoas procuravam brincar e me relaxar. Heitor nasceu à 14h30, com respiração espontânea e fazendo barulho. Ele tinha 38 centímetros e 1,300kg. Era tão frágil, apesar o choro forte! Eles não o mostraram na sala de parto. Fui pro quarto e ele para o CTI. Eu tinha curiosidade em saber como era seu rotinho, se parecia comigo, mas não reclamei. Todos me disseram que ele estava bem, mas por ser uma “caixinha de surpresas”, precisava ir logo para o CTI.

Conheci meu pequeno príncipe no dia 03/04, às 11h. Eu estava super dolorida e parecia um pão caseiro de tão inchada. Senti solidão ao ver que minha “pança” estava vazia. Se eu pudesse, engolia Heitor novamente, pra guardá-lo dentro de mim, e protegê-lo de tudo. Na incubadora, ele usava uma touca, tinha sonda oral, tinha cateter e outros acessos. Era tão pequenino e frágil! A fralda RN cobria todo o tronco. Tinha a cara do pai (mas o tipo sangüíneo era meu!). Lógico que chorei! Chorei de dor, de cansaço, de frustração, de culpa (essa parece que acompanha a gente em tudo, mesmo que ninguém seja culpado), chorei por ver meu pequeno tão frágil e tão “inacabado”, precisando de “recheio”. Eu queria imensamente poder pegar ele no colo, mas não era possível ainda.

Fui para casa no dia 04/04, de mãos vazias e peitos cheios de leite. Eu só queria um início normal, uma vida normal para o Heitor. Eu me sentia roubada. Meus sonhos exilados. Eu queria ter ele em casa, saudável e pronto para receber a visita dos queridos. Queria ter fotos, queria café e bolo quentinho pra receber a família e passar o dia como “a macaca e o macaquinho”, como meu Heitor mamando no peito. Tive que me “doutrinar” para não frustrar. Eu sabia que não tinha tempo para chororô ou qualquer outro sentimento negativo. Heitor precisava mais de mim do que eu dos meus sonhos e expectativas. Não tive repouso, dieta nem nada. Curava a dor “na unha”, ordenhava pela manhã e passava as tardes com ele no CTI. Ele era tão pequeno que desaparecia nos meus peitos quando fazia “mãe canguru”. Só não tinha como estimular a amamentação. Ele não tinha força suficiente. O “mamá” era na sonda mesmo. Com dez dias, fomos para a tenebrosa fase da Unidade Intermediária. Lá ficavam as mamães do SUS, convênio, particular, era o “mal necessário” para todas. Ali, em tese, é um estágio do tratamento dos bebês prematuros, onde há a interação das mães com seus filhos. Trocávamos fralda, dávamos banho, vestíamos e alimentávamos os nossos pequenos. Essa era a parte boa (a única) da Unidade Intermediária. Eram 12 leitos, 12 mães, 12 histórias, 12 pessoas com educação e noções de higiene diferentes. Dividíamos a sala da UI, outra sala (sala onde guardávamos nossos pertences), que era a sala das mães (medonha) e um único banheiro, sem janela, imundo, sem acento de vaso, molhado e com um tanque, onde a mães poderiam lavar roupa.

Parecia uma piada de péssimo gosto. Era a filial do inferno. A maternidade passava ter caráter punitivo (quem mandou ter filho prematuro?). Não era permitido que saíssemos do hospital (apenas com autorização da enfermeira) e somente o pai poderia visitar o bebê. As mães poderiam receber outras visitas num saguão. Dormíamos na sala da UI. Cada leito tinha uma poltrona (sim, dormíamos em poltronas!), um berço e um criado mudo. Os bebês só podiam ficar naquela sala. Era uma barulheira o dia todo, luz acesa quase que 24hs. Método canguru? Esquece! Não havia silêncio. As crianças eram super manipuladas. Toda hora era fisioterapia, fonoaudióloga, exame físico, verificação de glicemia... Nem todo plantão de funcionários era com vozes baixas e luz amena. lembrem-se: ali as mães acabaram de ter seus bebês e estavam em recuperação do parto. Havia a tensão pela saúde dos filhos e tudo mais. Estávamos todas exaustas e expostas a condições de imundice total. Haviam funcionários que se compadeciam com a situação das mães e dos bebês, mas nem todos eram assim. Não tínhamos privacidade. Acordávamos por volta das 07h com um monte de gente na sala. Eram médicos, residentes, enfermeiros, técnicos, acadêmicos e até funcionários de outros setores. Falavam sempre alto como se fosse festa, como se todo mundo tivesse tido uma ótima noite de sono... Dormíamos em poltronas, acordávamos de três em três horas para trocar e alimentar os bebês... Acordávamos pela manhã como se tivesse passado um furacão pelas poltronas. Não tínhamos tempo para escovar dente antes dos bebês serem avaliados. Eu procurava manter em mente que o Heitor precisava muito daquele “estágio”, haja vista que
ele ainda nem tinha 1,500kg. Era o “mal necessário”.

Eu poderia escrever um livro bem gordinho com tudo de horrível que acontecia por ali. Fiquei dois meses morando na UI e posso dizer que se não vi tudo, cheguei bem perto. Presenciei cada absurdo. Desde mãe que abandonava filho, depressão pós-parto, bebês graves que paravam, bebês que evoluíam lindamente, mães obstinadas, abnegadas, agradecidas pela chance de sobrevida, outras revoltadas... Enfim, tudo. Mas o que mais gritava ali era a força daquelas crianças. Enquanto as mães tentavam superar as adversidades do ambiente hostil, os bebês travavam verdadeiras batalhas com o próprio corpo, para “amadurecerem” e se habituarem com o novo espaço. Eles eram manipulados, avaliados, furados, enfim não tinham paz. Mas aprendiam a mamar ou no peito ou na chuca, a respirar sem aparato algum e a descansar no meio da baderna. Boa parte deles ainda tomava antibióticos... E quando eu pensava que ia enlouquecer com o lugar e a situação, eu olhava para o Heitor e via o quanto ele lutava, o quanto ele era forte. Dentre os absurdos presenciados e vivenciados, o mais agressivo a meu ver, era o fato de que, dependendo de quem avaliasse o seu filho, talvez você tivesse um retorno, uma devolutiva da avaliação. Ninguém dava muita, quando nenhuma, satisfação sobre o estado geral e diretrizes de tratamento do bebê. Tinha médico que prescrevia o dia da criança sem sequer olhá-la. Mãe sempre quer saber tudo do filho. Eu me sentia num zoológico. Meu filho ficava numa “jaula” e às favas se eu queria ou não saber as quantas andava o tratamento. As respostas eram sempre evasivas. O médico chefe da equipe tinha essa diretriz de trabalho: as crianças são bem cuidadas, mas as mães não precisam de grandes considerações.

Era fato que meu filho foi clinicamente muito bem tratado. Não maldigo o tratamento médico, mas a forma como as coisas eram conduzidas. Era quase que exigido que as mães se mantivessem serenas e colaborativas, mas como se manter “zen” em uma situação como esta e pior, sem informações? No meio do caminho havia uma pedra... Minha estadia com Heitor, na UI, foi longa devido uma inflamação intestinal que ele teve. Quase perdi meu filhote com isso. Ele já sabia o que era barriguinha cheia de leite”, quando teve de ficar uma semana com sonda aberta, e mais vinte e um dias se alimentando com nutrição parenteral. Ele teve dois acessos centrais e foi ficando cada vez mais estressado e reativo. Chorava de dor e de fome, apesar a nutrição dar certa sensação de fome saciada. Estoquei meu leite para ele, quando então pudesse voltar a “mamar”. Foi uma festa quando ele saiu do acesso central. Logo seria estimulado a mamar no peito e então teríamos nossa “carta de alforria”.

Fim dos problemas? Ledo engano. Heitor não era só estressado e reativo. Ele tinha refluxo e esofagite... Nós não sabíamos. Coitado do meu guerreiro, sofria e não tinha como dizer onde doía. A carranca da culpa foi implacável. Começava a fase do triângulo (aquele travesseiro), onde ele dormia pendurado e inclinado. No fim ele não conseguiu mamar no peito, mas topou uma “deliciosa” chuca de leite anti-refluxo. Meu lindo guerreiro teve dificuldades de mamar até a chuca, mas a cada dieta se via uma melhora. Era tão bom poder vê-lo sem o “bigode” de esparadrapo e a sonda pendurada na boquinha.

Heitor estava com 2,585kg, 47 centímetros de altura, e mamando super bem a chuca, quando recebemos alta. Eu não sabia se chorava ou se ria de tanta felicidade. Finalmente dias de normalidade! Finalmente voltar pra casa! Finalmente comida fresca! Finalmente banheiro limpo! Finalmente acabavam meus dias de Macabéia. Finalmente filho em casa, no conforto do lar, no aconchego do colo da mamãe e do papai... Finalmente o colo quentinho das vovós e dos vovôs, dos tios, padrinhos, amigos. Finalmente ambiente e horários voltados exclusivamente para o meu Heitor. Finalmente pasárgada para mãe e filho.

Hoje meu filhote está mais gordinho, lindo, sereno, uma criança suave, se desenvolvendo bem e ao seu tempo. Apesar de tudo, sou grata pela estadia no CTI e na UI. Foi um remédio amargo, porém necessário para o Heitor. Lógico que não é um início normal, natural e lógico que lhe foge a calma e muitas vezes a autodeterminação e controle se esvai por ente os dedos. Mas quando eu vejo meu guerreiro lindo e sadio, eu tenho certeza de que qualquer problema, qualquer percalço é menor do que se imagina.


Editado por Monica mãe de Beatriz

Quer ler aqui a história de seu bebê? Mande um e-mail com fotos e autorização para: pequenosguerreiros@hotmail.com.
Todas as histórias são editadas antes de serem postadas.
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Não nos responsabilizamos pela veracidade dos fatos.
O Projeto Pequenos Guerreiros é a favor da liberdade de credo.

Um comentário:

  1. nossa!!eu imagino como foram dificieis esses dias...eu passei 4 meses em uma utin,só q de uma maneira bem melhor,a utin onde minha filha ficou(ela nasceu com 24 semanas e pesando 700gr)era exelente,tinha uma salinha vip para as mães e vsisitas,enfim eu tinha outra familia la,a equipe da utin fazia parte da minha familia,e faz até hoje.minha filha esta com 3 anos,linda e temos contato com todos da utin.parabéns pela sua força e curta muito seu querreiro.bjs

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