segunda-feira, 11 de julho de 2011

Prematuro, a luta pela vida: a história da Pequena Guerreira Alicia e da mamãe Tatiana

Alicia-delícia, aos dois meses,
como garota-propaganda de
uma agência de publicidade chinesa!
Alicia-delícia deu um tremendo susto na mamãe e no papai nascendo prematuramente num país distante: China! Mamãe Tatiana conta como foi enfrentar uma infecção e um parto prematuro do outro lado do mundo, desconhecendo a língua e com sistema de saúde tão diferente do brasileiro.

Em 2008 meu então namorado (atual marido) conseguiu um emprego numa empresa brasileira, mas atuação dele seria na China, numa cidade chamada Chongqing. Como eu estava progredindo na minha carreira de advogada, deixamos nossa relação a distância, mas passado 1 ano e meio, resolvi largar carreira, família e amigos aí no Brasil e fui morar com ele na China, após a celebração do nosso casamento em agosto de 2009.

E assim começou uma nova vida, num país muito diferente mas muito acolhedor. Nos primeiros oito meses de China, me dediquei a conseguir oportunidades no mundo das importações e exportações, viajava pela China sozinha atrás de fornecedores, passava o dia na internet trabalhando. Mas também não deixávamos de curtir nossa vida de recém casados, já que sempre fomos muito baladeiros e adoramos viajar. Filhos? Não passava pela nossa cabeça, ainda mais pelo fato de não estarmos no Brasil. Planejávamos para quem sabe três ou quatro anos... dos meus 35 anos não passaria! Mas em agosto de 2010, numa visita ao Brasil, percebi que algo estava diferente com o meu corpo, mas neguei que eu pudesse estar grávida pois no avião, indo pro Brasil, eu tive um pequeno sangramento e concluí que era menstruação. Apesar do meu fluxo ser sempre muito intenso, achei que naquele mês o pouco sangramento estava sendo influenciado pela troca da pílula e pela pressão do avião. Afinal, da minha cidade aqui da China até São Paulo, são três aviões e 26 horas de voo ao total. Mas como as mudanças no corpo estavam muito intensas, resolvi fazer o exame de sangue um dia antes de viajar pra Europa... estava grávida de 6 semanas.

Passei treze dias na Europa e na sequência estava de volta na China, onde meu pré-natal se iniciou. Não falo nada de chinês, então a cada consulta eu tinha que ir ou com a secretária do meu marido, ou com a namorada de um amigo brasileiro. Aqui quase ninguém fala inglês. Nos meses de setembro e outubro as minhas consultas foram aqui na China, e em novembro e dezembro estive no Brasil, onde consegui a informação de que esperava uma menina. Aqui na China eles são proibidos de dizerem, já que a maioria das famílias preferem os meninos e, como aborto é legalizado, eles temem que a mulher aborte ao descobrir que é menina. Não esperava uma menina qualquer... e sim a Alicia, minha delícia!

De volta à China no começo de 2011, mudei de apartamento, pois minha mãe viria para cá me ajudar e ficaria por três meses. Precisava de um apartamento maior pra acomodá-la e também acomodar minha bebe. Tínhamos tempo, pois era 15 de janeiro de 2011, o nascimento estava previsto para 9 de abril e a chegada da minha mãe para o dia 30 de março.

Tudo ia bem até que, no dia 20 de fevereiro de madrugada, acordei com uma dor alucinante no estômago. Uma dor que nunca senti na vida, além de cólica intestinal, seguida de diarreias fortíssimas e vômitos, muitos vômitos. Em questão de 1uma hora já tinha ido mais de oito vezes ao banheiro e vomitado mais de dez vezes. Não tinha mais nada no estômago, só vomitava agua e a bílis. Cheguei à maternidade que tinha escolhido para ter a Alicia por volta das 5 da manhã. Fiquei internada por uma semana na base de soro, já que achavam que era uma infecção alimentar. A bebê era monitorada a cada três horas e estava tudo bem, assim recebi alta. No entanto, após dois dias essa crise de dor no estômago, seguida de diarreia e vômito voltou. Mesmo eu tendo cuidado da alimentação com máximo rigor. Lá fui eu para o hospital de novo, mais uma semana de internação e até então estava tudo sob controle comigo e com a Alicia, veio mais uma alta, e apenas depois de um dia essa crise veio com mais força. E depois de cinco dias internada, tive outra crise ainda mais forte (uma dor tão forte, que eu gritava, chorava e implorava por remédio mas não podiam me dar em razão da gravidez). A maternidade em que estava pediu minha transferência para o maior hospital da cidade, porque não sabiam o que estava acontecendo comigo.

Cheguei ao novo hospital no auge da dor. Só chorava e implorava por qualquer remédio que me aliviasse. Estava acompanhada do meu marido, um casal de amigos brasileiros e a secretária chinesa que estava nos assessorando na comunicação. Fui transferida pra ala gastro do hospital. Lá pelas 2 da manhã, após muita diarreia e muito vômito, e da cena de eu me ajoelhar na frente do médico pedindo remédio, fui sedada. Meu marido passou a noite ali comigo sentado numa cadeira toda torta e num frio de 0 grau, sem qualquer sistema de calefação no quarto. E continuavam sem saber ao certo o meu diagnóstico.

No dia seguinte pela manhã, fui transferida pra ala de obstetrícia. Minha bebê estava sendo monitorada todo o tempo. Não tinha contração alguma, muito menos dilatação e o coração dela batia super forte. Fui submetida a uma bateria de exames e constataram uma infecção grave no fígado e outra no estômago. Tudo isso estava fazendo que minha bebê sofresse, já que eu estava perdendo peso e para agravar ainda mais a situação eles detectaram que o mioma que tinha antes mesmo de engravidar, estava gigante impedindo inclusive a transmissão de nutrientes pra Alicia.

Assim, em 11 de março de 2011, resolveram que para o bem da bebê e para meu próprio bem, ela teria que nascer de uma cesariana. Seu peso estimado era de 2,5 quilos. Porém existiam sérios riscos para ambas. Estava meio dopada com a dor de estômago e com a sedação do dia interior, não entendi quase nada, mas vi o medo nos olhos do meu marido.

Fui pra sala de operações e enfim conseguiram um médico que falava inglês. Estava sozinha, já que meu marido não podia me acompanhar. Só naquela hora fiquei sabendo que seria anestesia geral. Quando senti o medo, apaguei! A Alicia nasceu com 1,750 quilos e 40 centímetros. Depois do parto, retiraram meu mioma que estava quase do tamanho de uma bola de baseball.

Acordei três horas depois, me mostraram a Alicia por menos de dois minutos. Estava completamente grogue. Só consegui dizer: como ela é pititica! No minutos seguintes ela foi transferida de ambulância para o hospital infantil, meu marido a acompanhou. Aqui não existe qualquer projeto mãe-canguru, ou mesmo pais visitando bebês na UTI. Simplesmente porque na UTI Neonatal tinham mais de duzentos bebês (na minha cidade moram 30 milhões de habitantes), eles não dão conta de esterilizar todos os visitantes. No dia seguinte, meu marido estava comigo no hospital quando ligaram para ele do hospital infantil falando chinês. A única coisa que ele entendeu foi: venha correndo para cá, precisamos falar com você urgente. Nesse momento, ele começou a chorar. No olhar dividimos nosso pavor: será que querem nos dizer que ela morreu?

Eu ainda estava muito debilitada e fiquei sozinha no meu hospital rezando e chorando. Ele seguiu para o hospital infantil acompanhado de uns amigos brasileiros e de chineses. Chegando lá, o que queriam era uma autorização para realização de exames e depósito em dinheiro de uma determinada quantia (o sistema de saúde aqui é pago). Foi detectado sangue no esôfago dela mas estavam tratando. Ela teria que ficar no hospital somente para ganhar peso, pelo menos foi o que me disseram.

As ligações e e-mails, vindos de amigos e familiares do Brasil, felicitando pelo nascimento de Alicia, me entristeciam. Eu não estava alegre, não estava feliz. Estava triste e assustada...

Ela ficou dezoito dias internada. Nesse período, pude visitá-la apenas duas vezes e por apenas dois minutos. Só consegui porque era única estrangeira! Nesse período meu coração sentiu um medo congelante de perdê-la. Também fiquei com medo de que ela pensasse que eu a tinha abandonado no hospital. Queria gritar para ela que eu pensava nela cada segundo do meu dia! Ela nasceu cabeluda e tinham raspado metade da cabeça dela para colocar o soro na veia da cabeça. Foi um choque enorme vê-la tão pequena, tão magra e com meia cabeça raspada.

O meu dia se baseava em devorar informações sobre prematuros na internet, tirar meu leite, chorar e ver os vídeos que os amigos fizeram dela no dia em que nasceu. Estavam esperando que ela pegasse peso mas ela não estava mamando no peito e eu não podia doar meu leite. Dezoito dias depois, só tinha engordado duzentos gramas. Recebeu alta com 1950 gramas. Dia 29 de março de 2011, foi o dia mais feliz de toda a minha a vida! Chegou em casa e em apenas uma hora pegou meu peito e mamou e mamou e mamou... a chamo de minha bezerrinha!

Hoje ela completa quatro meses e já passou dos cinco quilos! Completamente saudável. Com dois meses e meio chegou a fazer sua primeira viagem de avião, foi pra Pequim tirar passaporte e fazer a certidão de nascimento. Hoje eu só tenho a dizer: Deus, muito obrigada pelo presente mais precioso da minha vida, minha filha Alicia! Conserve-a sempre com muita saúde e próxima a mim! Continuo a chorar mas agora é de pura felicidade!


Editado por Monica mãe de Beatriz

Quer ler aqui a história de seu bebê? Mande um e-mail com fotos e autorização para: pequenosguerreiros@hotmail.com.
Todas as histórias são editadas antes de serem postadas.
O Projeto Pequenos Guerreiros apoia a amamentação do prematuro ao seio.
Não nos responsabilizamos pela veracidade dos fatos.
O Projeto Pequenos Guerreiros é a favor da liberdade de credo.

9 comentários:

  1. Nossa, amiga, eu sabia da história sem tantos detalhes, e não parei de chorar de tanta emoção! Senti a sua dor, e seu coração apertado e cheio de amor! Alicia princesa Delicia! Amamos vcs mesmo de longe! Bjkas Tia Leninha

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  2. Bianca Amaral Mazzuchelli11 de julho de 2011 09:29

    Tati, menina!!que história, aqui fiquei preocupada e aflita sem saber muita coisa, só o que os meninos falavam....nem imagino como deve ter sido difícil par vc! mas agora vc tem essa recompensa linda o tempo todo do seu lado!!!
    beijos, beijos, saudades!!
    Bianca Mazzuchelli

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  3. Ai meu DEUS que emoção rs que história LINDA! Que DEUS continue iluminando vocs e os enchendo de saúde, amor e paz.

    Beijos da tb mãe, Viviani Corrêa

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  4. Oi, achei sua historia no twitter da pampars! Chorei que me acabei! Minha historia é bem parecida! Meu bb nasceu com 1580 e 42ctm Hoje com 8 meses ele ta com 8k e 70ct, forte e lindo os prematuros são guerreiros e te prepara, uns sapecas! O meu ganhou um andador com 6 meses e anda a casa toda!
    VIVA O LEITE MATERNO!
    BOA SORETE!
    http://twitter.com/@Marisabegi

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  5. Amiga acompanhei de longe toda sua aflição, mas mantive minhas orações sempre forte em vcs!! Hj estou muito feliz com o desfecho desta história, e sei q Deus nunca nos abandona e sempre esta ao nosso lado quando precisamos!! Posso dizer q vcs 3 são mais q vencedores!! Parabéns por esta belezinha q hj faz parte de nossas vidas!! Bjsss c muitas saudades!! Fabi.

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  6. uma das histórias mais lindas e comoventes que eu já li e participei torcendo, rezando, chorando e, mais tarde, sorrindo! Agora só penso em conhecer essa pequena delícia! :)

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  7. não foi fácil não. Descobri na Tati uma força absurda. Graças a Deus passou !E a Delicinha está aí: linda e forte como a mãe.

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  8. meu filho ficou 37 dias na uti neo natal.. eu podia visita-lo 3 vezes por dia e mesmoa ssim esta louca magina se eu não conseguisse ver ele?
    eu juro que eu teria desabado.. nãoa geuntaria

    te adimiro!

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  9. linda sua historia nossa em 18 dias ver sua filha só 2 vezes vc e forte, eu ficava 24 horas por dia com o meu e mesmo assim sofra muito!!

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