segunda-feira, 27 de junho de 2011

Prematuro, a luta pela vida: a história da Pequena Guerreia Liz e da mamãe Flávia

A Liz que é uma flor!
Liz lutou sem sua irmãzinha Laura mas venceu todos os desafios impostos a uma prematurinha de 770 gramas. Mamãe Flávia conta de forma leve e esperançosa a batalha que enfrentaram sempre juntinhas!

Sou estudante de Veterinária na UFRRJ e meu namorado não é de lá, estamos juntos atualmente a 1 ano e 5 meses. Em julho de 2009 descobri que estava grávida dele. Inicialmente me desesperei, porque estou no meio da graduação (5º periodo na época), conversamos muito sobre o que fazer e fui fazer uma ultra transvaginal para saber o tempo de gestação. Na cama do ultrassonografista, o susto: gêmeas entre 15 e 16 semanas! Quase morri do coração e demorei a acreditar na informação, minha amiga (hoje madrinha da Liz) estava comigo e ligou para o Adriano em êxtase. Ele ficou mudo do outro lado, foi para Seropédica naquela noite, choramos juntos. Contei pra minha mãe na semana seguinte e ela ficou muito feliz, comecei o pré-natal tardiamente. Tinha cólicas constantes.

Vieram as férias, depois delas voltei com minhas cólicas para Rural, mas na primeira semana de aula já fui parar na Maternidade de Seropédica com 20 semanas de gestação, ameaça de aborto. Eu precisava fazer uma cerclagem, um procedimento para fechar o colo do útero. Mas a bolsa de uma das meninas era herniada e o tempo de gestação também não permitia mais que o procedimento fosse feito. Conclusão: internação...

Eu tinha plano de saúde, então fui transferida para Nilópolis, cidade do Adriano. Era um hospital lindo e novo, todos extremamente atenciosos, fiquei quatro dias lá e fui para casa com o colo do útero dilatado e uma recomendação expressa do doutor Alexandre: não sair da cama até as meninas ficarem prontas para nascer. Fiquei a base de remédios para evitar as contrações, que eu ainda sentia esporadicamente. Só ia do banheiro para cama ou da cama para as consultas do pré-natal, andando o mínimo possível. Fiquei na casa da minha tia que era mais perto de Nilópolis.

Numa madrugada comecei a sangrar antes de ir dormir, voltei para Nilópolis quase 1 da manhã. Então fiquei internada direto. Só podia virar na cama. Levantar, nem pensar. Nem para o banho. Eu contava os dias no calendário do celular, comia e dormia. O chá de bebê das meninas já estava marcado para 12 de outubro, seriam Liz (G1) e Laura (G2). Elas mexiam o dia todo, eu conversava muito com elas, a medicação me dava tremedeiras e eu chegava a errar o garfo na boca na hora de comer. Os médicos decidiram diminuir porque os efeitos colaterais estavam muito pronunciados, diante disso no dia 30 de setembro entrei em trabalho de parto.

Na madrugada do dia 1º de outubro Liz nasceu às 3h40 com 30 centímetros e 770 gramas. Quando ela saiu por parto normal parei de sentir contrações. Já não sentia mais a Laura. A médica de plantão mexia dentro de mim em busca dela, mas a placenta estava na frente. Tive que esperar pelo anestesista, ele demorou 1 hora e 45 minutos pra chegar. Laura foi tirada por cesárea, e já falecida...

Chorei muito. A revolta foi imensa. Achei que demorou tempo demais, mas eu precisava de forças pra ver a Liz, que estava na UTI Neonatal. Minha mãe e o Adriano já tinham ido vê-la, me disseram o quanto ela era pequenininha e vermelha. As enfermeiras comentavam sobre como ela era ativa. No domingo de manhã fui lá, toda amarrada pela cinta, cheia de pontos. Minha tia foi me acompanhando, calcei os sapatinhos descartáveis com a ajuda dela. Tinha uma oração do anjo da guarda na parede, antes da sala onde se lavava as mãos. Levei um pacotinho de fraldas RN e uma oração enviada pela minha mãe. Lavei as mãos e entrei com um nózão na garganta, ansiosa por ver minha Liz, mas muito triste por não ter me despedido da minha Laura.

A doutora Renata me levou no cantinho onde ela estava, olhei minha filha numa névoa dentro da incubadora. Fiquei chocada, ela estava de touca branca e óculos escuro. Se mexia muito. Era peludinha e vermelha, as mãos dela eram micro, os pés então... Li uma plaquinha na incubadora e perdi a coragem de tocar nela: "mínimo manuseio". A incubadora apitou, me assustei mas era só para avisar que havia chegado na temperatura. Fiquei ali olhando a Liz, quando começou a ronda médica. Disse que ela já tinha tentado fugir da incubadora e colou as costas no vidro! As enfermeira contavam aos risos. Eu falava: essa é minha garota!

A Liz perdeu peso, como era esperado, chegou a 680 gramas. Liz tinha uma infecção e mesmo com uma semana de tratamento, os exames de sangue apontavam piora. Haveria uma troca de antibiótico, me preocupei, mas mantive a fé na minha guerreirinha, ela era maior do que aquela infecção. Naquele dia, toquei pela primeira vez na minha filha. Dentro da incubadora era quente e muito úmido. Ela se mexeu fortemente ao meu toque carinhoso. Pareceu se assustar. A doutora me mandou não acariciá-la mas tocar firme, deixei minha mão naquelas costinhas mínimas. Aquele dia saí triste do hospital, mas esperançosa...

Minha mãe marcava visitas todas as semanas. Em casa, eu fazia os trabalhos da faculdade e quando meu primo chegava do trabalho me levava de carro ao hospital, ia à igreja e me buscava na volta do culto. Vínhamos sempre falando da Liz, ela era o assunto em todos os lugares. Choviam fraldinhas RN! Só no trabalho do Adriano foram 20 pacotes. Houve uma história engraçada, Adriano foi comprar mais pacotes e só tinham dois. Uma senhora tinha outros cinco no cestinho para as bonecas da filha. Ele chegou à senhora e falou “oi, então... minha filha nasceu prematurinha... ela tem 720 gramas, preciso muito comprar essas fraldas e quase não encontro barato, a senhora se incomoda de levar menos pacotes e me dar mais um, peguei os únicos dois que sobraram lá..." a mulher deu e desejou melhoras para Liz!

A infecção passou, a icterícia também e ela já tomava dois mililitros do meu leite! Tirei os pontos e passei a visitar a Liz de ônibus. Passava as tardes com ela. Uma enfermeira me aconselhou a comprar uma pomadinha, comprei aquela pomada com tanto prazer... Saía de lá às 20h. Era á noite que as coisas aconteciam, Liz tinha apneias frequentes, inclusive voltou a ser entubada depois de ir para o CPAP. Ela ficou nessa durante um tempo... até que um dia, surpresa! Estava sem respirador nenhum! Nenhum! Podia ver seu rostinho completo e era lindinha! Me pediram para trazer roupas...mas era tudo tão grande... As enfermeiras faziam adaptações com fita crepe, era um desfile! Pediam laços, tiaras e eu comprava tudo apaixonada! Minha filha era linda e cabeluda! Era a atração na UTI, a menorzinha. Era também exemplo de força para outros pais, porque era a mais antiga, já estava lá há um mês.

Depois a Liz só engordou e cresceu, não teve mais nenhuma complicação! No aniversário de um mês distribuímos pães de mel, no segundo, um bolo surpresa. Quando alcançou 1800 gramas foi para o bercinho. Aí foi minha festa, comprei e ganhei macacões. As mães de UTI têm umas às outras. Tomávamos café, conversávamos. Mantemos até hoje a amizade. Uma passagem muito bonita dessa época foi quando o Arthur teve que operar o coração. As médicas nos avisaram que não poderíamos ver nossos bebês na parte da manhã. Aparecemos todas lá depois do almoço para dar força à mãe do Arthur. Todos se emocionaram com nossa colaboração.

Depois da chegada ao bercinho, o primeiro susto: Liz ficou muito doente. Uma espécie de resfriado. Caí em desespero. Eu já estava no limite, por mais positiva que eu fosse era estressante ir lá todos os dias e ver minha filha naquela situação. Todos os bebês tinham alta, menos ela. Foi suspenso o treino de sucção e meu leite estava secando, isso me deixou triste. Ela levou 15 dias pra ficar bem, e começar a sugar. Outra batalha! A fonoaudióloga passou o leite anti refluxo e o bico de látex (que eu achava horroroso), mas só conseguiu mamar assim. Secava 50 mililitros. Já estava no peso ideal, sugava e estava melhor do resfriado. Não faltava mais nada para ir embora. Só dependia de mim, tinha que ficar das 8h às 22h para acompanhar sua rotina, dar banho, mamadeira, tudo!

Dia 30 de dezembro, 2 meses e 27 dias depois eu tive a noticia: seria no dia 31 de dezembro sua alta! Durante a reunião da alta, as médicas me pregavam como exemplo de perseverança. Todos sabiam da Laura. Aquela tarde eu chorei. Tirei fotos com todas elas, aliás passei a semana tirando fotos com todos os plantões. No dia 31 de dezembro cheguei lá às 7h30, mal dormi! Estava tonta até. Saí com o pé direito do hospital. Liz de lilás e com o tradicional sapato vermelho, feito sob medida pela madrinha. Fomos de táxi, mostrando cada bairro a ela, pela avenida Brasil inteira, até Irajá. E tirando fotos.

Tão pequenininha com seus 2.615 gramas e 43 centímetros! Fomos recebidos com festa pela minha mãe e minha tia, ansiosas. Balões e cartazes pela casa inteira, cartazes pela casa inteira, o quarto pronto, o berço montado com carinho pelo Adriano, tudo montado com muito carinho.

Hoje, a Liz tem duas casas, mora comigo a semana inteira em Seropédica, onde ainda faço faculdade de Veterinária, estou no 7º período. Lá ela tem mais sete mães, que são minhas companheiras de quarto. Dormimos separadas das meninas, mas no inicio, em março, era todo mundo participando das mamadas noturnas da Liz! E em casa, onde ela é o brilho dos olhos da minha mãe e da minha tia. E o alvo das corujices do meu pai!


Editado por Monica mãe de Beatriz

Quer ler aqui a história de seu bebê? Mande um e-mail com fotos e autorização para: pequenosguerreiros@hotmail.com.
Todas as histórias são editadas antes de serem postadas.
O Projeto Pequenos Guerreiros apoia a amamentação do prematuro ao seio.
Não nos responsabilizamos pela veracidade dos fatos.
O Projeto Pequenos Guerreiros é a favor da liberdade de credo.

5 comentários:

  1. vários erros médicos né..se ela nao tivese parado de tomar o remedio teria segurado as mmeninas por mais tempo..agora parar só por causa de alguns sintomas...tipo tremedeira..e outra como demoraram tanto tempo para tirar a outra bebê? ela deveria processar o hospital e os medicos e não se contentar com a morte de uma das gemeas..porque nao fizeram uma cesarea de emergencia que dura apenas 20 minutos?
    Luciula - mãe do guereiro ian luís de sete meses

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  2. é Luciola, eu tbm enxerguei esses erros e apesar da dor de perder uma das gemeas tive que ter forças pra me erguer pela Liz, mas isso ñ qr dizer q me conformei pela perda da Laurinha. Estamos tomando nossas providencias sim.

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  3. Conheci Flavinha quando ela tinha uns 3/4 anos. Depois nos reencontramos quando ela já era uma adolescente, por volta dos 18/19 anos. E nos tornamos sobrinha e tia,quase nora e sogra. Acompanhei o processo e a luta de Liz e de Laura. Estive na casa da tia de Flavinha( minha amiga a mais de 25 anos e comadre)para visitá-la e a mesma quietinha na cama. Ligava e falava com a tia pois Flavinha não podia atender o telefone, passei a falar com ela algumas vezes por celular. Posso dizer com certeza que as gêmeas eram esperadas com muito amor e ansiedade e que Flavinha cumpriu todos as etapas com muita calma e serenidade. Tenho muito orgulho dessa mãezona é um exemplo. E Laurinha sempre estará nos nossos corações e lembranças. Quando olho para Liz eu vejo um pouco da Laurinha. A Laurinha estara sempre presente em nossas vidas. Um beijo nas minhas guerreiras.
    Tia-avó Lígia Romão.(Com muito orgulho).

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  4. Tia Lígia, muito obrigada pelo comentáriooo!! Posso dizer que todas as ligações que recebi, todo o apoio e toda força da minha tia Angela que me recebeu em sua casa, dos meus primos e das meninas, que foram minha home care por todo o tempo que fiquei la foram fundamentais para que desse certo. Pena a Laurinha ñ ter resistido, mas a Liz é o resultado dessa união linda que é a nossa família!!
    O comentário do dia 4 de julho tbm é meu, esqueci d assinar!!

    Monica, obrigada por divulgar nossa historinha! Liz, papai, mamãe, vovós, tias-avós e amigos todos ficaram muito felizes e emocionados!!
    E eu vou seguir divulgando o bloig, se vc me permitir.
    grande bj,
    Flávia Pimentel - mãe da Liz

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  5. Flávia, que história emocionante! Meus sentimentos pela Laura! Meus sinceros Parabéns pela garra, fé e força incomparável que você carrega. Eu já era a sua fã profissionalmente, e agora sua fã pela MÃE, MULHER e GUERREIRA que é você! Que Deus abençoe e proteja sempre, você e a sua Liz.
    Du Esteves

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