terça-feira, 17 de maio de 2011

Beatriz e da mamãe Monica em (parte 2): Prematuro, a luta pela vida


Com 3 meses, logo após a alta.
Dia dos Pais em família!

Beatriz fazia inúmeras apnéias. Chegou a fazer dez numa noite. Todas as noites acordava inúmeras vezes com aquele apito do oxímetro na minha cabeça. Li em uma matéria norte-americana que o trauma de pais de UTI é semelhante ao de pós-guerra, não tenho como não me enquadrar. Um dia, por volta da meia-noite tocou o telefone lá de casa. Estávamos dormindo e entramos em pânico, os dois chorando com medo de atender ao telefone.

Hemorragia cerebral grau I, artéria aberta no coraçãozinho, hemorragia cerebral grau II, broncodisplasia pulmonar, hemorragia cerebral grau III, transfusões de sangue. Aquilo não parecia ser real. Daniel teve as férias prolongadas por mais duas semanas, emocionalmente ele não tinha condições de voltar antes. A bem da verdade não teria condições de voltar a trabalhar tão cedo mas a vida tinha que seguir seu rumo. Pela manhã ele deixava a mim e à nossa filha peluda no apartamento dos meus pais e nos encontrava somente às 20h, quando entrávamos na visita.

Optamos por deixar a família alheia a tudo que se passava. Se nós não tínhamos certeza de que tudo daria certo, como poderíamos dizer isso a eles? A resposta era sempre “tudo dentro de previsto” ou às vezes “ela está melhorando”, num dia mais feliz. Se para nós era difícil entender que numa UTI dois mais dois não é
quatro, quem observa de longe muito menos. Chegamos escutar “ué mas ontem ela estava melhorando”. Preferíamos nos furtar de qualquer comentário. Mesmo que não houvesse maldade nenhuma neles, nos feriam.

Não permitimos a visita de ninguém enquanto Beatriz estava nos cuidados intensivos. Fotos, eu só tirava às segundas-feiras, dia de seu aniversário. Os motivos foram dois: não chocar e desesperançar a família vendo um bebê daquele tamanho todo ligado a fios e canos e suscetível a fazer uma apnéia no meio da visita, e o segundo, UTI não é ambiente de passeio. Se havia algo que me irritava muito era a alta rotatividade nas incubadoras, e levavam o amigo do primo do vizinho fazer tour e ouvia-se “olha aquele ali que pequenininho, que dó”. A regra era: cada visita com seu bebê mas volta e meia aparecia os sem-noção.

Ser mãe de UTI é ser uma mãe sem bebê. Você mal pode tocá-lo, você não decide nada e você não pode levá-lo para casa mas você é mãe. Estranho. Complexo. Alguns anos antes do nascimento da Bia, a revista Claudia, se não me engano, publicou uma matéria sobre mães de UTI que me neguei a ler, achando que deveria ser muito sofrimento e que não aconteceria comigo. Bobinha.
 Mães de UTI são mulheres e mulheres fazem chacrinha. Logo são feitos laços de amizade, invejinha da alta alheia, fofoquinhas, compras, risadas. Trouxe comigo algumas amigas que quero manter para sempre. Pais de UTI são seres de olhos vermelhos. Ao reencontrá-los depois de tudo, podíamos ver rostos sem vestígios de choro.

Toda zebrada,
aos 6 meses.


Passavam-se as semanas e Beatriz não parava de ter apnéias. Sem se estabilizar, não poderia vir para o meu colo, muito menos mamar ao seio. Numa das visitas da tarde, o oxímetro não parava de apitar, fui ficando nervosa, acariciava seu pezinho para que ela lembrasse de respirar e nada. 69, 68, 67, 66... os números não paravam de cair e veio uma técnica correndo. Abriu a incubadora e a levantou só com uma mão. Beatriz estava roxa, seus bracinhos caíam ao lado do corpo, praticamente sem vida. Fui afastada dali, mudaram os parâmetros do respirador, a massagearam e me levaram para fora da UTI. Não sabia para onde ir. Precisava esgotar o leite mas quem estava esgotada era eu. Há seis semanas vendo minha filha a beira da morte. Me tranquei no banheiro e não queria sair de lá. Sentei no chão e chorei tudo que não tinha chorado até então. Não que não chorasse todos os dias mas aquele dia eu chorei a minha alma toda. Queria que aquilo acabasse. Era como estar num labirinto e não saber se vai sair. Consegui me recuperar e segui para a sala da esgota. Mais tarde a médica plantonista foi até lá me tranqüilizar dizendo que as vias aéreas estavam com excesso de muco somente. Existem anjos.

Do dia para a noite, por volta das sete semanas de vida, Beatriz passou a respirar sozinha! Uma conjunção de fatores, maturidade pulmonar, uma medicação mais potente e finalmente, aos 45 dias de vida, pude pegar a minha filha no colo. Sentir seu cheirinho, olhar seus olhos sem um vidro entre nós foi a melhor sensação que a maternidade até então tinha me proporcionado.


Aos 9 meses,
testando a roupa polar.

As apnéias voltaram de forma mais branda com a introdução da sucção. Neste ponto, a cada três horas eu entrava na UTI para amamentá-la. E a cada três horas, uma tortura. Mama, fica roxa, coloca oxigênio, sai chorando. A alta estava ali, nas nossas mãos mas não podia levá-la para casa enquanto não se estabilizasse e conseguisse se alimentar pela boquinha. Especulou-se que a dificuldade em respirar fosse conseqüência da hemorragia cerebral. Teríamos que ir até um hospital pediátrico para investigar os danos que o derramamento de sangue tinha deixado em nossa pequena.

Esperamos que estivesse “mais comportada” e partimos num passeio de ambulância às vésperas do que seria nossa segunda tentativa de alta. Beatriz sairia dos exames direto para casa, finalmente! Vestiu suas próprias roupinhas pela primeira vez, fez fotos de despedida e seguimos. Primeiro dia, primeiro
exame, tudo perfeito. Segundo dia, uma apnéia durante a tomografia, observação.

Nesta UTI eu podia ficar o quanto quisesse, chegava às sete da manhã e saía às onze da noite. Cochilamos juntas numa cadeira próxima à janela, só tinha o oxímetro ligado à minha filha. A técnica em enfermagem pediu para que a colocasse no berço aquecido para fazer a medicação anticonvulsivante. Comentei que ela costumava tomar via oral e não endovenosa. Foram as minhas últimas palavras antes do momento mais dramático de nossa internação.

A técnica aplicou a injeção e vi minha filha chorar fortemente pela primeira vez. Seu rostinho mínimo se contorcia. Os parâmetros do oxímetro caíam numa velocidade que eu ainda não tinha visto. Não só os parâmetros respiratórios como os cardíacos despencavam. Foram segundos mas ainda sinto como se fossem horas. Começou uma correria e alguém me retirou lá de dentro. Havia uma porta de vidro jateado que me permitia ver apenas vultos. Fiquei em pé do lado de fora vendo o entra e sai. Não chorei. A única coisa que pensei foi “estava tudo muito bom para ser verdade, ela vai morrer no final”.

Repito que pareceram horas. Me sentei e a porta de vidro se abriu. Saía de lá a médica plantonista com lágrimas nos olhos e aparência cansada. Abracei-a pela cintura e desandei a chorar enquanto ela acariciava meu cabelo. Ela falou uma apnéia, perguntei o porquê e ela me disse que não sabia. A plantonista do hospital pediátrico daquela manhã era a chefe da UTI onde a Beatriz nasceu. Já tinha sido eleita como nossa pediatra, se tornou muito mais que isso. Anjos existem. Como conhecia todo histórico de Beatriz, Dra Gislayne não a entubou. Fez Beatriz voltar com um outro tipo de respirador menos agressivo, não sei dizer
como. Aliás ainda não sei direito as causas dessa apnéia, só vi no laudo da alta: apnéia 120 segundos. Mais um passeio de ambulância, voltamos a nossa UTI de origem, sem novas intercorrências mas com mais sete dias de UTI de brinde.


Na festinha de
1 ano!

Pedi para que não fôssemos direto para casa, então fomos encaminhadas para dois dias no quarto da maternidade. Fiz lembrancinhas, comprei doces, finalmente teria o que sonhei! Restringi as visitas apenas aos nossos pais, avós e irmãos. Porém um amigo dos meus sogros furou a barreira e conseguiu nos visitar. Óbvio quw tudo o que eu evitei por 72 dias foi por água abaixo, Beatriz teve uma queda de saturação importante enquanto mamava na frente de estranhos. Ficou roxa e enquanto eu a massageava com um sorriso sem graça no rosto, dizia às visitas que era normal. Não, não era.

O “engasgo” se repetiu enquanto tomava a vitamina e o ferro, saí correndo descalça pela maternidade, abri a porta da UTI e entreguei minha filha roxa novamente. Não acreditava mais que aquilo tivesse fim. Ganhamos mais quatro dias no quarto.

Leia as partes 1 e 3:

Parte 1: http://www.projetopequenosguerreiros.com/2011/05/prematuro-luta-pela-vida-historia-da.html



Parte 3: http://www.projetopequenosguerreiros.com/2011/05/prematuro-luta-pela-vida-historia-da_18.html

7 comentários:

  1. As apneias são dificeis demais...os médics dizem que o problema do Lucas é um pouco de muco tb...
    Se Deus quiser, e Ele quer, tb teremos um final feliz!!
    Até amanhã para o niver!!
    Beijos

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  2. Ai meu Deus, choreeeei com o post de hoje.

    Pais de UTI sao pais de olhos vermelhos, tu quer me matar Monica?

    Beatriz sempre linda e mimosa. Que querida.

    Rita e Bella
    www.botoezinhos.com

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  3. Ai, meninas, escrevi esse relato há dois meses, para uma entrevista e ainda choro. Passa mesmo um filme pela cabeça da gente.

    Mercia, esse tal de muco é uma tortura. Aquele vidro cheio na cebeceira da incubadora é mais uma tortura a nós imposta pela UTI... Força!

    Beijos!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Desculpe o primeiro saiu errado!
    Pensei que era só eu uma mãe feliz e traumatizada!Mas percebi que todas nós temos um "choro" que não foi liberado... minha princesinha faz um ano dia de junho e resolvi fazer eu mesma a retrospectiva imagina chorei como criança!!!!!!Não pensei que ainda tinha tanto pra chorar mas agradeço à Deus todos os dias pelas nossas vidas e nunca esqueço de pedir por que está passando hj por esta situação
    bjinhos
    Simone mãe da Sophia

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  6. minha filha nasceu de 6 meses,no dia 8/06/2012, e esta na uti, e estou enfrentando o mesmo drama e posso dizer que a coisa mais difícil do mundo,vc ver sua filha daquele jeito e não poder fazer nada apenas da carinho,ela chegou a ter duas paradas respiratória que estabilizaram,mais peço todos os dias a Deus p/ que ela saia logo do hosp e venha p casa.

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  7. noossa que historiaa linda....que bom que foi tudo bem ...
    ano passado tbm tive um parto prematuro de 6 meses e minha menininha nasceu com 920 gramas...1 mes e 6 dias na uti ..mas infelizmente ela nao sobreviviu =....naum gosto muito de lembrar....mas pela honra e a graça de Deus meu salvador depois de 1 ano ele me deu outra gravidez hoje estou de sete meses e muito muito feliz e Deus esta aconpanhando tudo..esta comigo a toda hora......que Deus abençoe todas essas crianças e maes que sofrem com o parto prematuro...tudo de bom...e boa sorte..franciele itj sc

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