segunda-feira, 16 de maio de 2011

Beatriz e mamãe Monica (parte 1) em: Prematuro, a luta pela vida


Com duas semanas e 1,240kg.
Fazendo charminho!

Daniel e eu nos conhecemos em 1998, lá se vai quase uma década e meia! Contrariando tudo que se espera de dois pós-adolescentes, nos casamos. Sempre planejamos ter uma vida estruturada antes de ter filhos. Não só material como emocionalmente. Planejamos a gestação para depois que tivéssemos 30 anos.

Meu aniversário é dia 29 de dezembro. Em 2008, sete dias antes de completar 30 anos, recebi o positivo! Uma surpresa, já que nem havíamos começado “as tentativas” oficiais. Minha menstruação estava atrasada, coisa que muito raramente acontecia, e me sentia diferente, por isso comprei o exame de urina na farmácia num domingo à noite. Fiz o exame com a primeira urina da manhã e nem precisou dos cinco minutos ditos na embalagem, lá estavam as duas listrinhas!

Na quarta-feira, véspera de Natal, ligamos para todas as clínicas de ecografia para fazer o exame. Não havíamos contado para ninguém e queríamos aproveitar as famílias reunidas na ceia. Chamamos todos à frente da tevê e colocamos na cena dos batimentos do coraçãozinho. Foi uma choradeira só! Após quase dez anos de casamento, metade da torcida achava que não queríamos filhos nunca e a outra metade achava que não podíamos tê-los.

Segui tendo uma gestação tranqüila. Pré-natal bem feitinho, boa alimentação, exercícios físicos adequados. Com doze semanas descobri que quem vinha por aí era a minha Beatriz! Sempre sonhei em ter uma  menininha.

Na consulta de 26 semanas estava tudo muito bem. Havia engordado apenas quatro quilos até ali, o que é ótimo para uma mamãe com sobrepeso. Sempre tive muita umidade durante a gestação. Com 26 semanas e 3 dias, notei que o muco havia se intensificado ainda mais. Branco, espesso. Pensei “não, não pode ser o tampão, é muito cedo”. Havia lido que o tampão tinha filetes de sangue e meu não tinha. Como faltavam muitas semanas para o parto, não tive dores, sangramentos ou contrações, achei que era o muco mais espesso mesmo.

Meu marido havia tirado férias aquela semana. Seriam 21 dias em casa para podermos iniciar as adaptações e decoração do quartinho, fazer o curso de gestantes e o tão sonhado book da gravidez. Não sou muito fã de fotos e acabei não tirando nenhuma, esperando pelo book. Fanático por futebol e ainda mais pelo Internacional de Porto Alegre, meu marido planejou uma viagem naquele fim-de-semana para assistir ao jogo. Em cima da hora eu desisti, disse que estava cansada e que fosse sozinho, indo e voltando no mesmo dia. Mal sabia eu da enrascada ainda maior que estava me livrando!

Chegou o domingo, meu marido foi para o aeroporto e fiquei sozinha com minha filha peluda. Como todos os dias, iríamos caminhando devagarinho por trinta minutos até a casa dos meus pais. Na hora de sair, senti um cansaço absurdo e me deitei. Lá por meio-dia, liguei para meu pai ir nos buscar porque a preguiça de caminhar era muito grande. Novamente: mal sabia eu da enrascada ainda maior que estava me livrando!

Almocei e senti um pequeno mal estar. Deitei no chão da sala e senti minha barriga endurecer e uma cólica moderada, algo parecido com uma cólica menstrual. Nada demais. Por via das dúvidas, resolvi ir ao pronto-socorro da maternidade bem em frente ao prédio dos meus pais.

Naquele dia, excepcionalmente, se atendiam as emergências dentro da maternidade. Passei pela porta da UTI-Neonatal e pensei “pobrezinhos desses bebês”.

Aos 45 dias de vida,
o primeiro colo de mãe!
Estava, então, com 26 semanas e seis dias. Sem outros sintomas além da cólica e do “muco” espesso há três dias. A residente de medicina fez o toque e arregalou os olhos. Pediram o telefone da minha obstetra e ordenaram que colocasse um avental verde. Ela me explicou que estava com sete centímetros de dilatação e eu não poderia sair de lá, ficaria aguardando a chegada da minha obstetra e suas orientações. Liguei para meu pai descer e fazer minha internação. Não estava nervosa, na minha cabeça leiga achava que poderia fazer a cerclagem e ir embora levar o restante da gestação.

Passei a noite no pré-parto tendo cuidados semi-intensivos. Meu marido havia ido me ver na noite de domingo mas não pôde ficar comigo, ali não era permitido. Eu tinha certeza de que tudo acabaria bem, que conseguiria manter a gestação por pelo menos mais um mês.

Fui levada à ecografia. A previsão era que Beatriz nascesse com 900 gramas. Quando disse que esperava segurar por mais quatro semanas o médico me olhou e disse “esse bebê nasce no máximo em quatro dias”. Fiquei brava e não acreditei. Infelizmente ele estava certo. Em uma falha de comunicação, levantei e a bolsa rompeu. E rompeu digno de cena de cinema, com água escorrendo em abundância.

Devido à posição em que Beatriz se encontrava e seu diminuto tamanho, foi feita uma cesariana. Nas horas ou minutos que antecederam o parto, senti muito medo! Tremia tanto que meus joelhos batiam um no outro, como nos desenhos animados. Da certeza que tudo ficaria bem, passei à certeza de que Bia não sobreviveria. Passaram diante dos meus olhos cenas da gestação inteira.

Tentava procurar o que tinha feito de errado para matar a minha filha. Eu tinha certeza que Beatriz não sobreviveria. Durante minha curta gestação sonhei inúmeras vezes que tinha um parto prematuro. Talvez meu corpo me preparando. A natureza? Deus? Santos? Anjos? Não sei dizer. Nos meus sonhos, depois de um parto conturbado eu levava para casa um bebê minúsculo. Minúsculo mesmo. Nos sonhos, cabiam na palma da minha mão!

O medo de que ela não sobrevivesse era tanto que eu nem senti a agulhada da anestesia. Não permitiram que ninguém me acompanhasse na sala de cirurgia. Escutava os profissionais dizendo que estava difícil devido à posição em que Beatriz se encontrava. Retiraram-na do meu ventre e um silêncio tomou conta da sala de cirurgia.

Haviam me avisado que talvez não desse tempo de eu vê-la, pois teria que ser encaminhada à UTI. O pediatra se aproximou com uma trouxinha azul e disse “pode dar um beijo, essa é a Beatriz”. Beijei o seu rostinho minúsculo, que fazia esforço para respirar, “te amo minha bonequinha”. Pedi desesperada para que a levassem para o oxigênio. Minutos depois, o pediatra voltou anunciando um bom erro de ecografia: Beatriz nasceu com 1,200 quilos, 37 centímetros e 27 semanas de gestação. A data de previsão do parto era 20 de agosto de 2009, Beatriz nasceu dia 18 de maio de 2009.

Nascia também uma mãe de UTI.

Não consigo ainda separar o que foram horas e minutos naquela segunda-feira. Voltei da anestesia, me levaram ao quarto, minha família me esperava. Falsos sorrisos, falsas certezas de que tudo ficaria bem. Me sentia no meio de um palco cercada de uma platéia condescendente com minha péssima atuação.

Excepcionalmente, perto da meia-noite, permitiram que eu entrasse na UTI para conhecê-la. Se disser que lembro de alguma coisa, estou mentindo. Só tenho comigo a sensação de culpa por não ter conseguido fazer o que a maioria maciça das mães faz: gestar até o final. Por minha incompetência, minha filha sofria. E foi esse fantasma que me acompanhou por meses a fio.

As visitas na UTI eram permitidas às 14h e às 20h. Tive alta quatro dias depois, não queria sair do hospital. Uma frase comum a todas as mães de UTI: sair do hospital sem meu bebê foi o pior dia da minha vida. Não há palavras que descrevam tal solidão.

Com meu marido de férias, dormíamos até o meio-dia, almoçávamos, tomávamos banho e íamos para os trinta minutos ao lado da nossa filha. Esgotava o parco leite das mamas e saíamos. Daniel não agüentava ficar em casa. Mesmo com as dores da cirurgia, eu o acompanhava. Andávamos a tarde toda pelo shopping. Para acalmar a minha ansiedade, comprava roupinhas tamanho prematuro.

Todos dizem que não pode chorar perto do bebê mas eu não agüentava. Passei a usar lentes porque meus óculos ficavam embaçados de tantas lágrimas. Todos os dias cantava durante a visita a música Alecrim, cujo ritmo variava com as notícias do boletim médico.
Aniversário de 2 meses,
colo de papai e lacinho!

Cada mililitro de leite colocado pela sonda era comemorado! Começou a maratona da produção. A minha era mediana. Ok. Sejamos sinceras, era baixa. Foi prescrita uma medicação, tomava litros e litros de água, apelei para os chás milagrosos e canjica. Comprei a melhor das bombas, esgotava a cada três horas, inclusive de madrugada, colocando o despertador. Sempre a mesma quantidade, para a minha frustração.

Dois dias após nascida, nos avisaram da primeira hemorragia cerebral. Mais dois dias e foi “desentubada”. E assim era nossa rotina. Uma surpresa a cada visita, às vezes boa, às vezes ruim.

Ao sair da respiração mecânica, Beatriz foi colocada no CPAP, o que significava que ela já precisava fazer algum esforço para respirar. Mais novidades em nossas vidas de pais de UTI: saturação e apnéia. Beatriz, devido à imaturidade cerebral e pulmonar, “esquecia” respirar. Os bebês prematuros ficam conectados a um aparelho que se chama oxímetro, é através dele que sabemos se o bebê está respirando. O aparelho emite sons agudos toda vez que o limite de oxigênio fica abaixo do adequado. São os sons da UTI.

Acompanhe a continuação!

Parte 2: http://www.projetopequenosguerreiros.com/2011/05/prematuro-luta-pela-vida-historia-da_17.html

Parte 3: http://www.projetopequenosguerreiros.com/2011/05/prematuro-luta-pela-vida-historia-da_18.html

7 comentários:

  1. Vc já imagina o qto chorei né...afinal estou passando por tudo isso...essa sensação de incompetência de não levar a gestação até o final é péssima, penso isso todos os dias...
    Luquinhas está agora na fase das apneias, pesado mesmo...mas estou contando os dias para as 35 semanas chegar e ele melhorar, com esperança sempre!!
    Parabéns pelo lindo relato!! Vc é muito especial!
    Beijos com carinho!

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  2. Eu tbm passei por isso tudo minha pequena vitória nasceu de 27semanas,pesando9o5gramas e medindo 32cm.teve varias complicações,hemorragia cerebral etc...ficou 3meses na uti neonatal hoje ela esta com 1ano e 2meses.Eu tbm acho que sair da maternidade sem a minha filha foi o pior dia da minha vida não da para descrever!!!!!!!!!!!beijos.

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  3. Estou no intervalo entre uma mamada e outra da UTI, e encontrei esse blog, num dia cinza e que meu coração está inquieto... Choro bastante nesse momento, mas com fé! Linda e dolorosa história, aguardando mais detalhes...

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  4. parabens a minha nasceu de 4 meses e hoje tem 2 anos gloria a deus

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  5. olá teve um bb em14/01/12 nasceu com 29 semanas ...ficou 3 meses e 5 dias internado no hospital odilon behrens em B-H....se chama Nicollas divinoem homenagem ao divino pai eterno...nasceu antes da hora por meio de uma pré-eclanpisia grave sobre esposta...
    o hospital foi maravilhoso ja que naõ tinhamos plano de saúde e nem condiçoes de pagar um neo-natal...mas sem dúida a dor maior foi ir embora do hospitl sem o meu filho nos braços...chorei muito...queria agradecer aqui com enorme gratidaõ a doutora Márcia do cti neo...e dr natacha e dra Alexandra do béçario onde lá ele permaneceu 48 dias..tamb´m as enfermeiras d.cida...tia val...tiia rose e tia gorete...pelo o imenso carinho c/ o meu filho..quando eu me sentia sem chaõ elas me apoiavam...todo dia era a mesma coisa ia em bora e o nicllas ficava...um grande dia 17/04/12 eu finalmente pude desser a rampa do hospital com o meu fillho nos braços...
    obrigado a todos...
    e p/ quem esta passando por isso nunca se esqueça...a gente vive um dia de cada vez..
    Rosana itamarandiba M-G...vale do jequitinhonha

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  6. Minha bebê nasceu de 28 semanas, pesando 765 gramas, 32,5cm.
    Hoje, após 33 dias na UTI, ela já pesa 1465kg.
    Cada dia traz suas dores e delícias. Alguns são bons outros, nem tanto.
    Minha pequena Maya luta pela sua vida e eu estou ao seu lado diariamente. Não é fácil, mas muitas vezes a força de Maya me dá mais forças para seguir em frente.
    Quanto a culpa que sinto, ainda é grande. Meu parto teve que ser antecipado devido ao fato de eu estar fazendo pré-eclampsia. Infelizmente minha obstetra não percebeu o real problema e apenas resolveu fazer algo quando fui internada na emergência do hospital...
    Mas, agora tento não pensar no passado. Meu foco é na recuperação de minha filha. Somente com muita fé é que consigo dia após dia e tenho certeza que Deus segura a pequenina mão de Maya e a conduz a recuperação plena!

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